Andava por uma rua deserta – daquelas de Londres, como se vê naqueles filmes: sujas, escuras, cinzentas, molhadas. Só que num país em desenvolvimento. Ao invés de pseudogentlemen, mendigos que não foram retirados à força (e quem é retirado por vontade? E quem fica na rua suja e molhada por vontade?). Tropeçou num paralelepídedo sobressalente. Bem feito. “Isso é karma“, pensou. Afinal de contas, obviamente, isso era por não ter doado sangue na semana passada. Ou por ter ignorado um menino-de-rua como se ele fosse invisível. Ou por ter trancado a porta enquanto uma mulher grávida pedia dinheiro à sua janela de seu automóvel recém-comprado. Ou por ter ignorado sua amiga ao ler sua mensagem por falta de paciência com pessoas quando seu mundo vai à merde. Continuou andando. Ouvia alguma música de depressivos para depressivos sobre depressivos e que com a qual nada se identificava, mas achava bonito olhar pra rua, andar sob o passo musical, se imaginar num clipe, franzir a testa como se estivesse frio – imagine só! Um calor de 35ºC numa tarde cinzenta, daquelas bem abafadas que só uma cidade tropical oferece. Chegou ao seu destino. Um edifício com aparência moderna mas com uma porta bem larga de madeira. “Quanta merda no mundo.”. Entrou. Falou com a senhora do balcão. “Pois não?”, “Eu gostaria de uma validação.”, “Tíquete, por favor?”, “São sete pratas.”, “Claro que são. Claro que são.”. Pegou o tíquete e decidiu nunca mais dirigir, andar, sair de casa, estudar etc. Aquilo era uma grande metáfora pra sua vida. Validação. Retroalimentação. Tudo que fazia precisava de, direta ou indiretamente, validação. Um abastecimento. Uma leitura. Uma alimentação. Um retorno sináptico. Pensar. “Que se foda. É a vida. Amanhã eu penso a respeito.”. E dirigiu, ignorou, trancou, abasteceu, reproduziu-se, envelheceu, morreu.
“O momento em que você consegue se visualizar livre das coisas que te seguram no lugar, é o momento em que você começou a se libertar de fato.”
Autor desconhecido.
Tenho tido muitos pensamentos a respeito de uma antiga frase minha, título de um site de relacionamentos que nem uso mais – pelo meu próprio bem, abandonei-o há um tempo, e, para minha surpresa, descobri recentemente que todos os meus antigos amigos o deixaram de usar há um tempo menor. A frase era a seguinte: “A angústia é o resultado da perda de intimidade de um homem consigo mesmo.”. O momento em que a vivia era, de fato, angustiante ao extremo. Olho para esse passado e fico surpreso e feliz pelo momento que vivo hoje. Antigas pessoas, que nada me acrescentavam – vejo isso hoje -, eram tidas como indispensáveis. Hoje vivo outra coisa que não sei começar a explicar. Falta ar. Não é, de fato, empolgante, mas é algo totalmente novo. Parece que me deram óculos com o meu grau exato e eu consigo enxergar perfeitamente – não esses pares normais que não basta o melhor oftalmologista para prescrevê-los: eles sempre serão errados e existirá alguém que enxerga mais longe.
Venho informar a mim mesmo que aquilo tudo parece completamente ridículo, mas é reiterado por muitos, é dito, é sabido, é triste, é feliz, é vergonhoso, é amedrontador, é digno de pena, é ilusório, é perfeito: o baque é maior. Parece meio contraditório, mas é um ponto a mais para ser mais perfeito. Finalmente, livre.
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Acho que essa “era de peixes” já deu. Esse mar de pensamentos oriundos de uma doutrina católica da Idade Média que, embora já tenha acabado há mais de meio milênio, persiste na nossa sociedade. Dogmas pessimistas que não a permitem, como um todo, se manter no alto. No positivismo – em vários sentidos!
Como todo o mundo pode deixar que tudo que acontece de bom tenha seu mérito dado a “D”eus? Como uma sociedade pode acreditar que tudo que acontece de ruim é culpa dela mesma? Como é que pode uma população se sentir coletivamente bem se tudo que consegue não é seu e tudo que lhe acontece de mal é culpa única e exclusivamente sua?
Se for assim, me desculpem, bilhões de pessoas que ainda seguem preceitos que não nos cabem mais – olhem ao redor, já sabemos clonar seres vivos e que é possível surgir moléculas orgânicas de inorgânicas em ambientes pré-cambrianos –, me desculpem por ser tão egoísta e não acreditar nessa tal força metafísica que rouba todas as minhas conquistas. Eu não acredito nem por um milissegundo. Se Amy Winehouse morreu, não foi porque ela não tinha Deus no coração. Se alguém passou no vestibular, foi porque estudou, todos os méritos são dessa pessoa. Se alguém matou alguém, não foi porque o demônio estava no corpo dela: bichos se matam. Somos bichos, só que um pouco mais chiques. Chiques o suficiente para ter consciência – não o bastante para todos, pelo visto, para serem positivistas.
Viva o hedonismo! Ou viva o prazer pelo prazer. Seja ele imediato ou não. O prazer de descobrir. O prazer de conversar. O prazer de ser curioso. O prazer de ser sociável. O prazer de se trancar dentro de casa e jogar video-game sem qualquer preocupação. No entanto, nunca, nunca o prazer de se fechar aos fatos que chegam e aceitar dogmas que não têm qualquer prova, não têm… sentido. Qualquer um.
A cada dia que passa me torno mais e mais intolerante a religiões. E se eu morrer amanhã, é porque eu morri. Morri de problemas de saúde ou porque um motorista distraído não olhou o sinal – ou porque a culpa foi minha mesmo e atravessei sem olhar. A cada dia que passa meu corpo passa de olhos que reviram em suas órbitas a perigosos punhos que se fecham. Me tornando tudo que eu não queria ser. Um intolerante à intolerância da razão. E, infelizmente, quem perde o sentido é quem o mais tem…
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Golfei. Tudo que eu queria saber sobre a vida e nunca tive coragem de perguntar. Vontades reprimidas por uma agulha e nylon em uma boca. Um egocentrismo que enoja como um nacionalismo ufanista. Tudo que eu queria empurrar de um precipício mas sempre me impediram as leis. Criando raiva. Nomes de longas, curtas, episódios e peças sobre minha maravilhosa vontade de reclamar de uma vida que aos olhos alheios parece ser perfeita.
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Aquela sensação de querer abraçar um amigo próximo e chorar sem previsão de um fim para isso. Poder chorar e se exaurir. Exaurir toda a minha angústia – falta de intimidade de um consigo mesmo! – em lágrimas nos ombros alheios. Sem qualquer explicação. Sem qualquer crítica ao meu desabafo silencioso. Sem qualquer julgamento ou juízo de valor sobre meu Expressionismo solilóquio.
Sinto como se eu estivesse passando por uma prova metafísica. Algo maior que eu. Ao mesmo tempo, porém, é voltado a mim. Não sei explicar. Queria eu poder entender muito melhor isso. Acho que é algo do tipo não passar no vestibular por 1 vaga. É, algo assim, algo do tipo que faça alguém achar que o Universo conspira contra um! Ver as pessoas próximas a mim – relacionadas por sangue! – terem coisas que sempre quis – nem sempre físicas – por tão pouco e achar que mereço mais do que tenho. No entanto vejo que tenho muito. Só… não as valorizo. Ah! Os velhos dilemas que sempre voltam à tona…
Sou destinado a fazer algo! Cara Brum, eu mereço tudo! Eu mereço o que eu quiser, quando eu quiser. A diferença está no senso de justiça metafísica que existe, indubitavelmente, no âmago de qualquer pessoa, religiosa ou ateia, e que as faz ir para frente. Seguir. Não digo superar, mas continuar caminhando, acreditando que algo de bom vai acontecer a ela pois a balança da justiça universal está longe de estar equilibrada. Alguns chamam isso de esperança, também. Acho que é diferente. Esperança é o que faz uma página da rede virar a minha mais visitada, numa síndrome compulsiva e masoquista. Esse senso de justiça é a certeza de que algo de bom acontecerá àqueles que sofrem. Esse pensamento é um misto de catolicismo com piscianismo, porém expressa bem o que eu quis dizer, mesmmo tendo a consciência plena de que só os mais aptos sobrevivem, só os mais espertos conseguem ser felizes. Aquela velha história.
Tenho passado a maior parte de meus dias tentando fugir dessa depressão – que odeio chamar de depressão! Esse buraco negro que me persegue. Não consigo imprimir uma velocidade de escape suficiente para fugir. Entretanto, eu preciso. Preciso me forçar a ver um mundo que não consigo ver muito bem. Fui ao oftalmologista e à oftalmologista e parece que nem mesmo assim consigo enxergar a forma desse mundo.
Nesse expressionismo em que quando estou mal eu vejo tudo mal. Modifico meu ambiente externo para adequá-lo ao meu interno. Que comida desagradável. Que ruas feias. Que gente medíocre. Que mundo miserável. Ou até mesmo, na felicidade. Que mundo lindo! Que cores fantásticas! Que animais incríveis! Que forma perfeita. Se vejo o mundo como meu meio interno está, se o mundo não passa de um segundo plano para a minha vida – no caso, o meu mundo -, qual a aparência verdadeira dessa existência? Não a minha, que é passageira e irrisória quando comparada à toda existência: o mundo, a Vida, tudo. Se não reparo o que vejo, o que olho?
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Vamos lá Universo. Vamos lá. Vambora. Vamos em boa hora. Vamos. Por favor.
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Eu sinto como se uma enorme pedra tivesse sido posta no meu caminho. A contorno, a circungero, mas a cada passo que dou o mundo trata de girar a pedra pro lugar de origem. Sinto como se eu e todo mundo estivéssemos em um labirinto mas que a cada curva que eu faço eu me perco de alguém.
O escorpião parece pedir seu preço mesmo padecendo de credibilidade. O meu eu cético manda pisá-lo. O meu eu pisciano manda acolhê-lo. É tempo, afinal, de se perder pra se achar. De se achar pra se perder de propósito. De amar pra desgostar. De odiar para perceber que, no fim, nada vale a pena e que tudo aquilo que sempre prezei e sempre desprezei tem valores invertidos. Sinto como se nada que eu pensasse tivesse valor confiável. Afinal, o que teve importância ontem já não tem sua estima hoje tão bem enraizada em mim. E amanhã é como todos os amanhãs: um certo incerto cheio de tudo e com os sentimentos mais confusos possíveis. Uma triste realidade para alguém como eu que se isola desproposital e propositalmente. Estou me perdendo para me achar – as esperanças nunca morrerão assim como o “se”.
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O hábito de estar aqui agora
aos poucos substitui a compulsão
de ser o tempo todo alguém ou algo.
Um belo dia – por algum motivo
é sempre dia claro nesses casos –
você abre a janela, ou abre um pote
de pêssegos em calda, ou mesmo um livro
que nunca há de ser lido até o fim
e então a ideia irrompe, clara e nítida:
É necessário? Não. Será possível?
De modo algum. Ao menos dá prazer?
Será prazer essa exigência cega
a latejar na mente o tempo todo?
Então por quê?
E neste exato instante
você por fim entende, e refestela-se
a valer nessa poltrona, a mais cômoda
da casa, e pensa sem rancor:
Perdi o dia, mas ganhei o mundo.
(Mesmo que seja por trinta segundos.)
BRITTO, Paulo Henriques
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And not even a single fuck was given that day.
Que pena que não fui eu quem disse isso e sim minhas esperanças.
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Sometimes,
I’m TERRIFIED of my heart
Of its constant hunger
For whatever it is it wants
The way it stops…
… And starts.
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