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Achado

Ela estava no alto do prédio, de pé na amurada de pedra que separava um mundo inteiro de tecnologias, pessoas, conexões mentais, interestaduais e mundiais, de outro mundo, inteiro, cheio de espíritos que na sua mente, seriam talvez melhor do que esse outro universo no qual ela estava presa, mal conseguindo manter-se de pé. Depressão era de longe o que ela não sentia: era muito pior, aliás, não se deve usar nada certeiro sobre “ela”, então, corrigindo: devia ser muito pior. Ninguém, absolutamente ninguém sabia o que ela pensava, o que ela sentia, o que ela deixava de sentir. Ela apenas acreditava num futuro melhor, mas sem nenhum tipo de pensamento otimista quanto a isso, vivia no fundo do poço, mesmo que acreditando que um dia a luz lá de cima iria ser ocultada por alguém perguntando se estava tudo bem.
Mas não deu tempo desse alguém aparecer, ela pulou. Aliás, diz-se que ela não pulou não, foi a primeira pessoa a voar: ficou livre. Livre de todas as mazelas de sua miserável – nunca ordinária – vida. O prédio tinha apenas um andar. Caiu na água gelada.
Voltou pra casa e deitou na cama, tremendo. Pensou bastante na idiotice do que tinha acabado de fazer, pensar e almejar. Afinal, viver é um presente, e ela iria morrer um dia ou outro, inevitavelmente.
Decidiu viver, enquanto tremia.
Morreu de pneumonia no dia seguinte.

Anestesia

Argh, to cansado já desse sentimento bate-volta que vive me acometendo. VAZIO.
De repente, sinto-me atingido por ele, e nada mais quero. Ou pelo contrário, tudo quero e nada posso.
Todos os defeitos que não possuo vêm a tona – detalhe para como eu me referi: eu poderia ter dito “todas as minhas qualidades somem”.
Impaciência, futilidade, desmotivação, ganância, inveja, tristeza, choro…
Afasto-me de todos os meus amigos, a quem me dão suporte nesses momentos, me irrito facilmente com atitudes que julgo, agora, infantis mas que em momentos normais consideraria apenas brincadeiras inofensivas.
Deixo de olhar para o que eu tenho, e começo a encarar o que eu NÃO tenho. Caramba, sou fútil mesmo. Quero tudo tudo tudo e mais, e quando eu consigo eu logo enjoo, largo, destruo ou desprezo. Não aguento mais!
Essa minha apatia é passageira, todos sabem, mas às vezes simplesmente queria deixar de sentí-la, nunca mais! É um desejo que eu anseio por tudo que há na minha vida, e sei que nunca vou ter. Ou vou, que seja, mas não será num futuro muito próximo.
Sabe o Toque de Midas? Então, o meu é a sua antítese: tudo que eu toco vira merda. Consigo destruir tudo que construí, tudo que os outros conseguiram construir, e não me sinto nada agradável com isso, aliás, quem se sentiria? Não consigo evitar, é mais forte do que eu nesses momentos desprovidos de graça.
Chega uma hora que até um pelo flutuante de meu cão me irrita tanto, mas tanto que eu grito. Um erro de digitação, uma letra, me faz arrancar cabelos. Um minuto perdido de reflexão é pura perda de tempo. Queria dormir e nunca mais acordar, afinal, voltei a ter um sonho que eu tenho desde pequeno: morro, e como espírito visito todas as pessoas que eu amava, que eu considerava, e via como elas reagiam à minha morte – egocentrismo comanda aqui – e mesmo sem poder interferir em suas vidas, não sei o porquê de isso ser tão importante pra mim, o SER importante para alguém. Eu nem sei o motivo de escrever nesse blog, já que nenhum amigo vem pessoalmente e diz algo do tipo “poxa, li seu texto no seu blog e me identifiquei, pode ficar calmo, eu te ajudo com isso, é normal…” ou menos ainda como “eu li seu texto, legal”. Até dizem, sabe, mas eu queria algo mais substancial.
Desmotivação de viver é o que manda na minha vida, acho que eu só vivo, ando, como e durmo hoje por alguns motivos e pessoas, que, até mesmo por pretensão sei que sentiriam minha falta – aí que vem aquele pensamento maldito “ou não”.
Caramba, prometi que não iria mais chorar nesses textos depressivos, mas não dá sabe, eu to me sentindo tão mal, mas tão mal, que é capaz da minha mente bloquear tudo isso e quarta-feira, na psicóloga eu não conseguir dizer nada, apenas chorar e chorar e ela ficar preocupada, e pera aí: ela tem oito anos de profissão e tá preocupadíssima – nas suas próprias palavras – com minha depressão? Então deve ser algo mesmo sério, mas não demonstro! Nem mesmo a mim, quanto mais aos meus amigos.
Mas só eu sei, ou uma parte minha sabe o quanto eu to mal, quebrado, vazio.
Já dizia Brandon Flowers, “Time cure hearts”. Resta esperar. Esperar.. Esperar…

O que eu estou esperando? Ninguém pode me dizer, é segredo!

Maybe

Eu nunca estou satisfeito com nada.
Queria uma bola de cristal para ver se um dia isso acabará.
Será?
Queria sentir coisas como se nunca as senti na vida.
Queria ficar contente com o que eu tenho agora
Queria o não-querer das coisas.
Queria o não querer o ter.
Queria muitas coisas, mas nada como ser, talvez, eu.
Sei que sou inteligente, pelo menos acima da média. Sei que tenho algo de beleza, pelo menos novamente, acima da média. Sei que tenho amigos maravilhosos, coisa que muita gente gostaria de ter. Mas será que minha vida tem que sempre ser comparada com a dos outros? Minha vida só existe se houver um referencial? Preciso me amar sem motivos, sem precisar mostrar isso para os outros. Os Outros…
Estou evitando ir para cama, pois sei que vou cair em tentação e me partir em pedaços, devaneios, lágrimas e sono. Dormirei e acordarei como todos os outros dias, como se isso nunca tivesse acontecido. Fico apenas feliz de que este texto seja o registro de uma coisa que virou quase rotina, e que só escrevi pois um amigo próximo perguntou o motivo de eu ter me afastado do blog. Coisa que eu nem sei o motivo, sei lá.
A tentação macia está chamando. Edredom, lençol, travesseiro e colchão. Pele lisa, escorregando. Sono, acordar. Soneca e banho.

De Repente

Do nada, comecei a me sentir estranho. E estranho, e mais estranho. Comecei a viajar nos meus próprios pensamentos, devaneios e ilusões. Voltei a realidade logo, assim que pude, pois sei que não devo mais fazer isso: afinal, consegui quase tudo que queria, e tudo que eu agora tenho, que já quis e arduamente – ou não – consegui, não dou o devido valor. Sou a futilidade em pessoa, sou a ambição definida. Sou a volubilidade materializada e concentrada. Quero. Não quero. Quero. Não quero tanto mais. Jogo fora. Salvo.

Me Salvem! Não! Quero eu mesmo me salvar, preciso apenas… de AJUDA! DE AUXÍLIO!

Dinheiro me satisfaz, mas logo que o tenho não sei o que fazer, gasto tudo e logo quero mais. Paro e penso: não é esse o propósito? Então por que sentir-se mal em gastá-lo? Talvez por que não é “seu” e você não tenha trabalhado arduamente para conseguí-lo?
Resolvido: Trabalho. Canso-me exaustivamente com esse trabalho, mesmo que o mesmo não me exija muito por enquanto, mas é o preço que lhe valhe: apenas 200 reais. Será isso o suficiente para saciar-me de meus desejos? Não sei.

Tempo, o perdi bastante? Estou na flor da idade e sinto como se tivesse 50 anos de idade. Minha psicóloga disse que se ela fechasse os olhos ela pensaria que estava falando com uma pessoa idosa, que está desesperada pra viver enquanto pode. QUERO VIVER! Ao mesmo tempo em que não posso! EU QUERO! Mas não posso! OU POSSO, mas não quero ter que querer o poder? Pequenos devaneios como esse me fazem enlouquecer antes de dormir, no ônibus, em momentos que estou sozinho, e na terapia-espelho, os mesmos voltam com toda a força, como um soco para mim. Me acho feio, me acho bonito, volubilidade está solta, mas nunca é constante: não posso ser uma coisa que eu queria, que eu sou, tenho que ser uma coisa que é instável, inconstante e não é nem um pouco uniforme.

Se existisse um gráfico de fossas minhas, esse sim seria uma verdadeira montanha russa, com direito a loopings e parafusos. Até nisso eu tenho que ser diferente. Já não basta estar na cota: brasileiro, não-rico, fútil, digno de pena, gay, suburbano, o que mais? Por que é tão fácil listar defeitos e não qualidades? Não que ser gay seja um defeito, aliás, essa é uma das poucas coisas que gosto em mim.

Sinto inveja das pessoas contantes, desde os que têm o ego nas alturas, e acham tanto que são desejados, que se fazem ser. Até mesmo das que vivem integralmente em fossas, elas sabem quem são elas! E eu que não sei quem eu sou? O que eu sou? Eu sou? Eu?

Vou deletar esse texto um dia, ou não, ou sim, ou talvez…

Eu sou um filme.

Eu sou um filme, um filme fotográfico, que exposto à luz fica marcado e é impossível voltar ao estado inicial, apenas marcá-lo ainda mais a ponto de destruir o filme totalmente, ou tornar sua imagem – as marcas – irreconhecíveis. Que nele – em mim – podem ficar gravadas lindas imagens, retratando belíssimas paisagens ou o comportamento humano, sorrisos à imagens de pobreza e destruição, o branco exposto muito tempo ou o negro por conta da tampa da máquina. Posso ficar marcado com o movimento rápido e desleixado, ilegivelmente ruim ou perfeito, passando apenas para a próxima fotografia e rezando para que a boa não se altere.

Eu sou um filme, um filme hollywoodiano, ganhador de 5 Oscars – com a letra érre dentro de um círculo ao lado – e que é polêmico, repercurtindo em todas as bocas por onde é malhado e chocando todos os olhos por onde é absorvido. E antes de que sequer tenha-se uma opnião, as bocas conversam com os ouvidos – ouvidos esses, que há tanto sofreram com a polêmica de sons e que junto de imagens desafiadoras vistas pelos olhos tinham informado ao cérebro de seu dono todos os dados necessários para uma opnião, ganham novas informações, informações estas que entram em conflito com todas as outras já informadas, e tudo acontece rapidamente sem que se dê conta: os novos dados ganham e a impressão crítica prevalece: sendo esta boa ou ruim.

Eu sou um filme, um filme bollywoodiano, uma cópia, um piratão. Não passo de uma filmagem de alguma história boba que só serve para preencher o vazio de algumas pessoas que não tem nada melhor para fazer do que ver um filme de baixa qualidade, que não vale nada e que você se pergunta “Por que será que perderam dinheiro e tempo fazendo esse lixo de filme?”.

Eu sou um filme indie, um filme que só passa nas madrugadas dos canais mais cults, aqueles que só os que usam allstars, camisetas listradas, cabelos repicados e com mechas descoloridas, tatuagens, óculos de aros grossos, lápis escuros nos olhos, donos de bocas de palavras difíceis, donos de línguas desenfreadas, donos de corpos que existem para serem olhados, donos de cérebros inegualáveis, assistem. Mas que na verdade, não passam do produto mais fútil da mídia, e eles sabem disso, e não ligam. Não ligam pois este é o único jeito no qual se sentem menos cópia, menos bollywood: um jeito de ser reconhecido.

Eu sou um filme batido, um filme que passa toda hora na Sessão da Tarde. Uma Lagoa Azul. Meu corpo e meus olhos doem, meus ouvidos não querem mais escutar mas eu sou clichê, eu continuo existindo e sendo observado por olhos cada vez mais críticos e que não me aceitam, ou me aceitam mas falam que não saio do normal e que continuo o mesmo, que esse filme repete, e repete, e repete, repete pete re tepete reperete repe te. E queima, o filme queimou.

Eu sou um filme. Pegue a pipoca e a Coca-Cola, o senso crítico e o senso comum, quiçá o senso de ridículo, pois você irá precisar deles. Saia da sala indignado xingando o diretor ou continue, durma. Levante e bata palma. Você decide, estou em cartaz. Estreando as múltiplas facetas de um ser humano que é a pessoa mais egocêntrica, e mesmo assim, mais crítica da opnião pública já existente.

why does it always rain on me?

Se uma música conseguisse definir meu status atual em uma letra, esta seria a escolhida:

i can’t sleep tonight
everybody’s saying everything is alright
still i can’t close my eyes
i’m seeing a tunnel at the end of all these lights

sunny days
where have you gone?
i get the strangest feeling you belong

why does it always rain on me?
is it because i lied when i was seventeen?
why does it always rain on me?
even when the sun is shining
i can’t avoid the lightning

i can’t stand myself
i’m being held up by invisible men
still life on a shelf when
i got my mind on something else

sunny days
oh… where have you gone?
i get the strangest feeling you belong

why does it always rain on me?
is it because i lied when i was seventeen?
why does it always rain on me?
even when the sun is shining
i can’t avoid the lightning

oh… where did the blue sky go?
why is it raining so?
it’s so cold

i can’t sleep tonight
everybody saying everything is alright
still i can’t close my eyes
i’m seeing a tunnel at the end of all these lights

sunny days
oh where have you gone?
i get the strangest feeling you belong

why does it always rain on me?
is it because i lied when i was seventeen?
why does it always rain on me?
even when the sun is shining
i can’t avoid the lightning

oh, where did the blue sky go?
and why is it raining so?
it’s so cold

why does it always rain on me?
is it because i lied when i was seventeen?
why does it always rain on me?
even when the sun is shining
i can’t avoid the lightning
why does it always rain on me?
why does it always rain on…

atualizações

Acabei de ser super seco com minha mãe, monossilábico. E tudo isso por nada. Portanto, acabei de decidir que não acredito em nenhuma palavra minha mais. Sigam a dica do milênio, eu sou um grande mentiroso que se ilude.

O Filho Perfeito

Cozinha, 02h30m. Estou andando randomicamente pela casa, culpa da insônia, quando chego na cozinha: perfeitamente limpa, impecável. Começa um redemoinho de pensamentos sobre minha mãe e começo a pensar no quão ruim eu sou como filho. Não lavo uma louça, só reclamo da vida e acho que estou com um buraco negro dentro do peito. Sentei no balcão e comecei a remoer várias coisas na cabeça. No quanto eu queria ser mais inteligente, mais bonito… Reparei no quanto eu sou invejoso, e invejoso até morrer! Sou eternamente frustrado pelas coisas que eu não tenho e que gostaria de ter. Um iMac, uma Canon, um namorado, beleza, inteligência, simpatia, vários amigos, ser lembrado pra sempre… Minha mente é um turbilhão de consumismo e ganância, e ao mesmo tempo eu não tenho isso, porque sei o quão ruim é viver assim, e tento logo afastar esses pensamentos. Enquanto isso, encontro o caderninho de receitas da minha mãe e fico revirando. Percebo o quão parecida são a minha caligrafia e a dela. Realmente, deve ser algo genético, porque são quase a mesma! Reviro folha por folha, olhando alguns ingredientes, como se fosse fazer algo, mas não ia. Eu estava pensando no quão inútil era aquilo pros dias atuais, e quanto tempo minha mãe desperdiçou naquilo, pois na época – ela não trabalhava – era o único meio para se fazer um registro de receitas, e pensei no quão vazia – ou não – ela se sentia enquanto fazia isso… Cuidar de mim e do meu irmão, trabalho cansativo talvez, e o mínimo valor que eu demonstro para ela… Eu dou valor sim, a amo, admiro e ela é minha pessoa favorita, mas não demonstro o quanto ela merece. Nem minha vida meaningless ela merece! E comecei a chorar, pensando se queria isso pra mim. Viver fazendo uma coisa que eu não quero. Uma coisa que eu não sei mais se quero, para falar a verdade. E falando a verdade, que ela seja dita! Eu não sei mais o que quero da vida! Se quero fazer química, se quero fazer teatro, cinema, se quero viver ou morrer! Me sinto fútil e ridículo, no mínimo patético quando falo isso para mim. E se eu no auge da minha carreira química, eu me deparar com esses pensamentos, e largar tudo, fazer teatro, cinema, fotografia, sei lá! E quando meu filho tiver minha idade, e eu estiver fazendo o que eu realmente gosto, ele pegar meus cadernos, meus relatórios de química, e chorar como eu chorei, pensando no tempo que eu desperdicei! Eu não quero isso mesmo – me arrepiei agora – e comecei a sentir pena da minha mãe, e ao mesmo tempo orgulho. Mas agora apesar dela estar trabalhando com o que ama, tendo seu próprio consultório e milhões de pacientes, estar bem de vida e trazendo cada vez mais coisas para nossa família – nunca para ela, parece não pensar nela, só na família -, está casada com um homem que não é digno dela – meu pai, resmungão, irritável, pavio-curto. Exatamente eu. Ela já me disse, aos prantos, que não ama ele. Não mais. E se acontecer a mesma coisa comigo?! Ela fez psicologia porque o amor da vida dela – por quem ela confessou ter ainda alguns sentimentos – teve depressão e ficou louco após a morte da mãe dele, e infelizmente ela teve que terminar o relacionamento. Mas olha só, isso foi antes dela conhecer meu pai! Há mais de 20 anos atrás. Sentimentos assim que perduram por duas décadas realmente não devem ser nada fracos. Eu já falei pra ela que simplesmente largaria meu pai, e iria atrás da felicidade pessoal dela, que ela já viveu bastante por mim, meu irmão e meu pai, e que até mesmo a própria profissão dela é “vivida” para os outros! Eu definitivamente chorei mais por isso, por ela estar jogando a vida dela no lixo! Eu não sei se quando ela olha pro passado se arrepende de alguma coisa, há coisas da minha mãe que eu nunca irei saber, mas sei que ela é uma pessoa maravilhosa, e que eu provavelmente fui uma gravidez indesejável – pelo menos no começo – e que “forcei” o casamento – sim, ela se casou porque estava grávida – e já ouvi também que muitas vezes ela quis se separar, mas que por causa de mim e do meu irmão, não se separou. Me sinto culpado, muito culpado. Porque ninguém merece meu pai – nem eu, por consequência – como marido, amante. Enquanto lágrimas corriam, eu pensava: “não quero! Não quero que isso aconteça comigo. Vou mudar, e pra valer.” Mas hoje eu peguei o notebook da minha mãe pra começar a escrever isso no terraço enquanto via o pôr-do-sol, pra ver se dava alguma inspiração, mas nem disso fui capaz: fiquei assistindo extasiado o sol sumir por detrás das montanhas que existem em volta da minha casa. As andorinhas cantavam e voavam e tudo que eu conseguia pensar era numa câmera nova para fotografar aquilo, numa filmadora boa para fazer algum filme cult sobre isso, com alguma trilha sonora de qualidade. Nada de química. Eu amo muito química, amo mesmo. Mas será que é isso que eu quero pra minha vida? Será que não estarei jogando anos de vida fora, como fez minha mãe? A idéia de se criar filhos vem originalmente de deixar que os filhos tenham tudo que você não teve, que eles não cometam os mesmos erros que você cometeu. A única coisa que eu sei até agora é que definitivamente eu preciso de um psicólogo, e mostrar esse blog para minha mãe é fora-de-questão. Acho que eu morreria de vergonha ao me ver criticando ela assim, sendo que é a pessoa mais perfeita desse mundo. Minha inspiração e fonte de vida. E eu continuo tratando-a como lixo. Tá, pode não ser como lixo, mas novamente eu digo… Sinto como se ela não me merecesse como filho, como se eu fosse um projeto de quase 18 anos que não deu certo, e que ela chora – sei que sim, pois já me disse – por eu não dar mais a mão à ela quando atravesso as ruas, por não deixar ela mais me ver pelado, por eu não contar tudo que acontece na minha vida à ela. Queria eu poder contar tudo. Que seu filho é um gay quase promíscuo, que ele é passionalmente frustrado na vida, que ele não vê a hora de sair de casa, que ele não sabe o que quer da vida, que ele às vezes tem vontade de não ter contado à ela que é gay, pois destruiu todos os sonhos maternos dela.
Fechei o livro de receitas, e chorei. Chorei muito. Enquanto bebia água, decidi olhando para o nada, apenas de olhos abertos, que iria mudar. Vou ser um filho diferente, vou trabalhar com o que me torne feliz – seja isso química, teatro, cinema ou fotografia, ou quem sabe outra coisa ainda?
Subi as escadas, em direção ao meu quarto, pensando ainda nisso. No que o furuto me reserva e do medo que eu tenho disso. Não quero me frustrar com a vida quando chegar na minha meia idade.
Mãe, desculpe-me, mas não sou o filho perfeito. Eu queria ser, vou tentar ser. Mas perfeito, nunca serei. Desculpas por ser uma cópia odiosa dos defeitos do meu pai. Desculpas por não amar o meu pai como eu te amo. Desculpas por te amar loucamente e mesmo assim não lhe retornar o amor. Queria demonstrar isso, mas não sei como. Minha eloquência é quase nula e esse texto prova isso: não transmiti quase metade do que queria transmitir quando pensei nisso durante meus devaneios líricos segurando o caderninho de receitas.
Deveria haver uma receita: Como escrever corretamente demonstrando seus sentimentos perfeitamente. Ou ainda: como saber o que fazer da vida.
Mas a perfeita seria uma torta de desculpas, à lá The Waitress.

A Idéia (Everything Goes)

Hoje foi um dia de recaída, daqueles.

Fiz uma coisa que eu não costumo fazer, uma coisa da qual eu mantenho uma distância como se a qualquer momento eu pudesse ter um impulso incontrolável – e foi o que eu fiz – de pisar no acelerador, bater de frente na traseira de um grande e largo caminhão.

Eu me despedi no Messenger de meus amigos, dizendo que iria dormir. Mas na verdade, em fato, eu peguei meu iPod e fiz uma pequena playlist de músicas que me lembram dele. Não mais uma pessoa, mas uma ideia. O que sobrou de tudo o que se passou: era hora de remoer, eu estava necessitado.

Então que eu peguei a playlist, conectei no meu som e dei play. Acho que foi uma das minhas piores ideias. Bem, vou ao saldo da madrugada de fossa: foi a primeira vez que eu chorei por ele – novamente, a ideia – no meu travesseiro, tive uma epifania e “descobri” – entre aspas, porque no fundo eu sempre soube – que eu sou o garoto que não conseguia parar de sonhar.

All you wanted to say was goodbye
You had to get on with your life
All you wanted to say was goodbye
Goodbye

Descobri também que música é um ótimo extrator de lágrimas, parece que as letras – poderiam até ser em mandarim, islandês ou russo – entram em meu corpo vibrando, e eu simplesmente as absorvo. Percebi que algo encheu meu coração com nada e alguém me falou para não chorar. Bem, não consegui evitar. A ideia dele existindo na minha vida ainda estava quente, como se fosse um rastro, uma pista deixada. Na verdade eu sei muito bem o que era, mesmo podendo não ter sido intenção dela – a ideia -, deixou marcas em mim.

Somethin’ filled up
My heart with nothin’,
Someone told me not to cry

Mesmo sendo agnóstico, não acreditando no incrível mito de Jesus, uma música que continha seu nome também me ajudou a desafogar minhas ideias.

Fool me into believing
I don’t care if you’re deceiving me
I wouldn’t want it any other way
‘Cause then I’d only stay the same

Sabe, fiz planos enormes para a vida, escrevi pensei falei imaginei e remoí esses planos. Acho que a vida me fez perceber que não se deve gastar tanto tempo com isso, que no final elas mostram que não valem o esforço. Vou me lembrar de todas as coisas boas, claro, o plano era ficarmos bem. Não ficamos, e não achei nenhum cavalo marinho.

Quando vejo o mar
Existe algo que diz:
- A vida continua e se entregar é uma bobagem!

Todas as palavras que aquela pessoa – agora como indivíduo – me disse, eram todas mentiras! Mentiras! Toda vez que eu fechava os olhos… Simplesmente isso me dá vontade de não acreditar mais em nada! Me faz pensar se todas as pessoas são assim, se todos têm seu lado mentiroso em um relacionamento.

Sleeping is giving in,
No matter what the time is
Sleeping is giving in,
So lift those heavy eyelids

Sabe, outro dia conversando com meu amigo, sobre relacionamentos, descrevi meu relacionamento dos sonhos, e logo após o texto – sim, ficou um pequeno texto – ele falou que aquilo era praticamente Stepford Wives, e eu comecei a pensar: eu mereço um robô perfeito? Óbvio que não, ainda mais que sendo gay eu não teria uma Wife que cospe notas. Depois disso, comecei a pensar sempre sobre o que eu escrevi, e percebi que eu nunca viverei aquilo, nunca. Talvez no paraíso – no qual eu não acredito – ou algo parecido. Percebi isso ouvindo a música que mais me fez entrar no poço horrível no qual eu estou:

All I know
Everything goes
My way is no way
It’s yours
A warm day in heaven

The life you fake will make you good they say
It’s another life
And the plans you make to make up for
Mistakes
Are they helping out?
They’re gonna get when you’re down

Também não foi assim “ai acho que vou ficar um pouco deprimido hoje“. Tudo começou quando eu assisti Queer As Folk, e no episódio, o personagem Ted encontrou um parceiro quase-perfeito, todos os gostos em comum, senso de humor, etc. Mas não havia uma coisa: atração. Quero dizer, será que eu posso ser tão fútil assim? Me sinto péssimo por pensar em estar desse lado da balança ou do outro.

Depois disso, voltei a ouvir Club 8 – o que não ajudou – e fui dar meu pequeno passeio na montanha russa que é meu travesseiro.

Só por curiosidade alheia, a playlist:

Jesus, Walk With Me – Club 8
Everything Goes – Club 8
The Boy Who Couldn’t Stop Dreaming – Club 8
Rebellion (Lies) – Arcade Fire
Wake Up – Arcade Fire
Vento no Litoral – Legião Urbana
The Friend I Once Had – Club 8
Keep Moving – Ivy
Clear My Head – Ivy

Clear My Head

I don’t want to think about you anymore
I don’t want to think about you anymore
‘Cause you’ve been on my mind
For such an endless stretch of time
And I don’t want to think about you anymore

I’ve got to clear my head
Of everything you ever did
Of everything you ever said
I’ve got to clear my head
Of everything you ever did
Of everything you ever said

I don’t want to put my trust in anyone
I don’t want to put my trust in anyone
‘Cause nothing that I knew
Turned out to be true
And I don’t want to put my trust in anyone

I’ve got to clear my head
Of everything you ever did
Of everything you ever said
I’ve got to clear my head
Of everything you ever did
Of everything you ever said

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