Pode parecer meio bobo o título, mas é o único que eu consegui pensar para ilustrar bem o que eu estou querendo passar aqui.
Quando tive dengue, há alguns meses atrás, fiquei internado durante alguns dias, enquanto sofria de um derrame pleural – assusta, não? Estava passando por experiências que deixariam marcas pra vida toda, e enquanto isso, pensava: “Nossa, tudo isso por causa de um mosquito micrométrico.“
Pois bem, durante o tratamento estive confinado à uma cama de hospital dura, – que muitas pessoas durante a epidemia nem tiveram direito, longe de reclamar, mas já reclamando – um travesseiro longe do significado da palavra macio, um lençol chamado de cobertor, e um catéter na veia.
Por esse catéter eram injetados algumas substâncias, dentre elas, soro e algumas medicações. Mas tinha uma – que eu nunca irei esquecer – que a enfermeira trazia exatamente às 15h, todos os dias à minha veia. E que me afetava de tal modo que é impossível não lembrar.
O nome do dito medicamento eu não sei, mas lembro muito bem do seu efeito. Primeiramente o médico dizia que a sensação era devido à penetração da solução ao meu organismo. Eu não sei se era psicológica ou física, mas a sensação era de eterna falta de esperança, de apenas querer fechar as pálpebras e dormir, rápida e indolormente.
Quando a enfermeira terminava seu ritual e saía, eu abria meus olhos molhados e chorava como um bebê desmamado, como uma criança mimada sem seu doce requisitado. Todos os dias às três da tarde eu queria que o mundo acabasse, que tudo queimasse e eu morresse, que simplesmente tudo sumisse.
Chorava, e chorava, e quando meus pais estavam por perto, aclamava por minha cama, minha casa, minhas esperanças diárias. Sonhos? Não haviam nesse estado de demência. Aquela sensação é como a do presidiário no corredor da morte, que conta os dias para sua execução. Sem qualquer tipo de exagero, escrevo seriamente constrangido.
Quando meus olhos já estavam esvaídos em lágrimas, minha pele ressecada com o sal das mesmas, e minhas veias paravam de latejar, sentia meu coração se acalmar, como o coração de alguém que leva um choque muito grande, como um susto, ou o de quem recebe notícia de morte de um ente querido e começa a aceitar os fatos: “ele se foi, e não há nada que eu possa fazer“.
Olhava debilmente para o teto daquele simples quarto de hospital, enquanto jaziam sobre meu peito um pequeno livro de palavras-cruzadas semi-completo e uma caneta falha. “Raiva com 3 letras: I _ _”
A medida que o tempo passava, percebia que as esperanças voltavam lentamente aos seus postos de origem, trazendo em suas mãos a bandeira suada da vitória. Sonhos? Sim, eles já eram possíveis novamente.
Lembro-me muito bem da primeira constatação de que iria sair do hospital: era o último dia, recebi um telefonema de um dos poucos amigos que haviam se preocupado comigo, e já eram quase 15h. Achei que não iria receber outra dose de demência novamente, afinal já estava saindo daquele antro de debilidade. O soro em minha veia não incomodava mais. Andava pra lá e pra cá, esperando minha mãe vir e eu sentir a angústia de não estar em casa.
Mas ao invés da minha mãe abrir aquela porta barulhenta do quarto, eis que entra a comensal enfermeira trazendo mais uma dose de morte temporária. Lembro de ter dito: “Não!” e a mulher apenas recuou, para depois vir com a seringa, desconectar a tampa do catéter, e injetar aquele líquido queimante, que acabava com todas as minhas vontades.
Toda felicidade que eu tinha de estar saindo do hospital foi sugada novamente, desabei em choro enquanto minha mãe entrava no quarto, aclamei por seu amor e minha cama, minha casa. Minha mãe apenas disse: “É o último dia, Yuri” enquanto alisava meu cabelo.
Mas aquela frase de nada adiantava, pois meu estado de inércia mortal acabava com qualquer conforto.
Enquanto meus olhos fechados e molhados me diziam “durma!” minha mente dizia: “de que adianta dormir?”. E a noite chegou, e com ela, a cavalaria.
Dormi, dormi com a felicidade de que no dia seguinte, não haveriam mais fugas desesperadas de esperança.
Mas, elas sempre voltam, não é mesmo?