Cozinha, 02h30m. Estou andando randomicamente pela casa, culpa da insônia, quando chego na cozinha: perfeitamente limpa, impecável. Começa um redemoinho de pensamentos sobre minha mãe e começo a pensar no quão ruim eu sou como filho. Não lavo uma louça, só reclamo da vida e acho que estou com um buraco negro dentro do peito. Sentei no balcão e comecei a remoer várias coisas na cabeça. No quanto eu queria ser mais inteligente, mais bonito… Reparei no quanto eu sou invejoso, e invejoso até morrer! Sou eternamente frustrado pelas coisas que eu não tenho e que gostaria de ter. Um iMac, uma Canon, um namorado, beleza, inteligência, simpatia, vários amigos, ser lembrado pra sempre… Minha mente é um turbilhão de consumismo e ganância, e ao mesmo tempo eu não tenho isso, porque sei o quão ruim é viver assim, e tento logo afastar esses pensamentos. Enquanto isso, encontro o caderninho de receitas da minha mãe e fico revirando. Percebo o quão parecida são a minha caligrafia e a dela. Realmente, deve ser algo genético, porque são quase a mesma! Reviro folha por folha, olhando alguns ingredientes, como se fosse fazer algo, mas não ia. Eu estava pensando no quão inútil era aquilo pros dias atuais, e quanto tempo minha mãe desperdiçou naquilo, pois na época – ela não trabalhava – era o único meio para se fazer um registro de receitas, e pensei no quão vazia – ou não – ela se sentia enquanto fazia isso… Cuidar de mim e do meu irmão, trabalho cansativo talvez, e o mínimo valor que eu demonstro para ela… Eu dou valor sim, a amo, admiro e ela é minha pessoa favorita, mas não demonstro o quanto ela merece. Nem minha vida meaningless ela merece! E comecei a chorar, pensando se queria isso pra mim. Viver fazendo uma coisa que eu não quero. Uma coisa que eu não sei mais se quero, para falar a verdade. E falando a verdade, que ela seja dita! Eu não sei mais o que quero da vida! Se quero fazer química, se quero fazer teatro, cinema, se quero viver ou morrer! Me sinto fútil e ridículo, no mínimo patético quando falo isso para mim. E se eu no auge da minha carreira química, eu me deparar com esses pensamentos, e largar tudo, fazer teatro, cinema, fotografia, sei lá! E quando meu filho tiver minha idade, e eu estiver fazendo o que eu realmente gosto, ele pegar meus cadernos, meus relatórios de química, e chorar como eu chorei, pensando no tempo que eu desperdicei! Eu não quero isso mesmo – me arrepiei agora – e comecei a sentir pena da minha mãe, e ao mesmo tempo orgulho. Mas agora apesar dela estar trabalhando com o que ama, tendo seu próprio consultório e milhões de pacientes, estar bem de vida e trazendo cada vez mais coisas para nossa família – nunca para ela, parece não pensar nela, só na família -, está casada com um homem que não é digno dela – meu pai, resmungão, irritável, pavio-curto. Exatamente eu. Ela já me disse, aos prantos, que não ama ele. Não mais. E se acontecer a mesma coisa comigo?! Ela fez psicologia porque o amor da vida dela – por quem ela confessou ter ainda alguns sentimentos – teve depressão e ficou louco após a morte da mãe dele, e infelizmente ela teve que terminar o relacionamento. Mas olha só, isso foi antes dela conhecer meu pai! Há mais de 20 anos atrás. Sentimentos assim que perduram por duas décadas realmente não devem ser nada fracos. Eu já falei pra ela que simplesmente largaria meu pai, e iria atrás da felicidade pessoal dela, que ela já viveu bastante por mim, meu irmão e meu pai, e que até mesmo a própria profissão dela é “vivida” para os outros! Eu definitivamente chorei mais por isso, por ela estar jogando a vida dela no lixo! Eu não sei se quando ela olha pro passado se arrepende de alguma coisa, há coisas da minha mãe que eu nunca irei saber, mas sei que ela é uma pessoa maravilhosa, e que eu provavelmente fui uma gravidez indesejável – pelo menos no começo – e que “forcei” o casamento – sim, ela se casou porque estava grávida – e já ouvi também que muitas vezes ela quis se separar, mas que por causa de mim e do meu irmão, não se separou. Me sinto culpado, muito culpado. Porque ninguém merece meu pai – nem eu, por consequência – como marido, amante. Enquanto lágrimas corriam, eu pensava: “não quero! Não quero que isso aconteça comigo. Vou mudar, e pra valer.” Mas hoje eu peguei o notebook da minha mãe pra começar a escrever isso no terraço enquanto via o pôr-do-sol, pra ver se dava alguma inspiração, mas nem disso fui capaz: fiquei assistindo extasiado o sol sumir por detrás das montanhas que existem em volta da minha casa. As andorinhas cantavam e voavam e tudo que eu conseguia pensar era numa câmera nova para fotografar aquilo, numa filmadora boa para fazer algum filme cult sobre isso, com alguma trilha sonora de qualidade. Nada de química. Eu amo muito química, amo mesmo. Mas será que é isso que eu quero pra minha vida? Será que não estarei jogando anos de vida fora, como fez minha mãe? A idéia de se criar filhos vem originalmente de deixar que os filhos tenham tudo que você não teve, que eles não cometam os mesmos erros que você cometeu. A única coisa que eu sei até agora é que definitivamente eu preciso de um psicólogo, e mostrar esse blog para minha mãe é fora-de-questão. Acho que eu morreria de vergonha ao me ver criticando ela assim, sendo que é a pessoa mais perfeita desse mundo. Minha inspiração e fonte de vida. E eu continuo tratando-a como lixo. Tá, pode não ser como lixo, mas novamente eu digo… Sinto como se ela não me merecesse como filho, como se eu fosse um projeto de quase 18 anos que não deu certo, e que ela chora – sei que sim, pois já me disse – por eu não dar mais a mão à ela quando atravesso as ruas, por não deixar ela mais me ver pelado, por eu não contar tudo que acontece na minha vida à ela. Queria eu poder contar tudo. Que seu filho é um gay quase promíscuo, que ele é passionalmente frustrado na vida, que ele não vê a hora de sair de casa, que ele não sabe o que quer da vida, que ele às vezes tem vontade de não ter contado à ela que é gay, pois destruiu todos os sonhos maternos dela.
Fechei o livro de receitas, e chorei. Chorei muito. Enquanto bebia água, decidi olhando para o nada, apenas de olhos abertos, que iria mudar. Vou ser um filho diferente, vou trabalhar com o que me torne feliz – seja isso química, teatro, cinema ou fotografia, ou quem sabe outra coisa ainda?
Subi as escadas, em direção ao meu quarto, pensando ainda nisso. No que o furuto me reserva e do medo que eu tenho disso. Não quero me frustrar com a vida quando chegar na minha meia idade.
Mãe, desculpe-me, mas não sou o filho perfeito. Eu queria ser, vou tentar ser. Mas perfeito, nunca serei. Desculpas por ser uma cópia odiosa dos defeitos do meu pai. Desculpas por não amar o meu pai como eu te amo. Desculpas por te amar loucamente e mesmo assim não lhe retornar o amor. Queria demonstrar isso, mas não sei como. Minha eloquência é quase nula e esse texto prova isso: não transmiti quase metade do que queria transmitir quando pensei nisso durante meus devaneios líricos segurando o caderninho de receitas.
Deveria haver uma receita: Como escrever corretamente demonstrando seus sentimentos perfeitamente. Ou ainda: como saber o que fazer da vida.
Mas a perfeita seria uma torta de desculpas, à lá The Waitress.
O Filho Perfeito
18 Janeiro 2009 por yurib
Sem palavras… omg… Se não tivesse sido vc q escreveu o post ai em cima, certamente eu teria escrito… Não do mesmo jeito, tipo… nas mesmas circunstâncias… mas garanto q o q eu sinto é mmmmmuiiiitoooooooo parecido com o q vc escreveu ai.. caramba… “BOM” saber q não to sozinho, num troço q eu já considerava – Carma – exclusivamnte meu…