Eu sou um filme, um filme fotográfico, que exposto à luz fica marcado e é impossível voltar ao estado inicial, apenas marcá-lo ainda mais a ponto de destruir o filme totalmente, ou tornar sua imagem – as marcas – irreconhecíveis. Que nele – em mim – podem ficar gravadas lindas imagens, retratando belíssimas paisagens ou o comportamento humano, sorrisos à imagens de pobreza e destruição, o branco exposto muito tempo ou o negro por conta da tampa da máquina. Posso ficar marcado com o movimento rápido e desleixado, ilegivelmente ruim ou perfeito, passando apenas para a próxima fotografia e rezando para que a boa não se altere.
Eu sou um filme, um filme hollywoodiano, ganhador de 5 Oscars – com a letra érre dentro de um círculo ao lado – e que é polêmico, repercurtindo em todas as bocas por onde é malhado e chocando todos os olhos por onde é absorvido. E antes de que sequer tenha-se uma opnião, as bocas conversam com os ouvidos – ouvidos esses, que há tanto sofreram com a polêmica de sons e que junto de imagens desafiadoras vistas pelos olhos tinham informado ao cérebro de seu dono todos os dados necessários para uma opnião, ganham novas informações, informações estas que entram em conflito com todas as outras já informadas, e tudo acontece rapidamente sem que se dê conta: os novos dados ganham e a impressão crítica prevalece: sendo esta boa ou ruim.
Eu sou um filme, um filme bollywoodiano, uma cópia, um piratão. Não passo de uma filmagem de alguma história boba que só serve para preencher o vazio de algumas pessoas que não tem nada melhor para fazer do que ver um filme de baixa qualidade, que não vale nada e que você se pergunta “Por que será que perderam dinheiro e tempo fazendo esse lixo de filme?”.
Eu sou um filme indie, um filme que só passa nas madrugadas dos canais mais cults, aqueles que só os que usam allstars, camisetas listradas, cabelos repicados e com mechas descoloridas, tatuagens, óculos de aros grossos, lápis escuros nos olhos, donos de bocas de palavras difíceis, donos de línguas desenfreadas, donos de corpos que existem para serem olhados, donos de cérebros inegualáveis, assistem. Mas que na verdade, não passam do produto mais fútil da mídia, e eles sabem disso, e não ligam. Não ligam pois este é o único jeito no qual se sentem menos cópia, menos bollywood: um jeito de ser reconhecido.
Eu sou um filme batido, um filme que passa toda hora na Sessão da Tarde. Uma Lagoa Azul. Meu corpo e meus olhos doem, meus ouvidos não querem mais escutar mas eu sou clichê, eu continuo existindo e sendo observado por olhos cada vez mais críticos e que não me aceitam, ou me aceitam mas falam que não saio do normal e que continuo o mesmo, que esse filme repete, e repete, e repete, repete pete re tepete reperete repe te. E queima, o filme queimou.
Eu sou um filme. Pegue a pipoca e a Coca-Cola, o senso crítico e o senso comum, quiçá o senso de ridículo, pois você irá precisar deles. Saia da sala indignado xingando o diretor ou continue, durma. Levante e bata palma. Você decide, estou em cartaz. Estreando as múltiplas facetas de um ser humano que é a pessoa mais egocêntrica, e mesmo assim, mais crítica da opnião pública já existente.