Ela estava no alto do prédio, de pé na amurada de pedra que separava um mundo inteiro de tecnologias, pessoas, conexões mentais, interestaduais e mundiais, de outro mundo, inteiro, cheio de espíritos que na sua mente, seriam talvez melhor do que esse outro universo no qual ela estava presa, mal conseguindo manter-se de pé. Depressão era de longe o que ela não sentia: era muito pior, aliás, não se deve usar nada certeiro sobre “ela”, então, corrigindo: devia ser muito pior. Ninguém, absolutamente ninguém sabia o que ela pensava, o que ela sentia, o que ela deixava de sentir. Ela apenas acreditava num futuro melhor, mas sem nenhum tipo de pensamento otimista quanto a isso, vivia no fundo do poço, mesmo que acreditando que um dia a luz lá de cima iria ser ocultada por alguém perguntando se estava tudo bem.
Mas não deu tempo desse alguém aparecer, ela pulou. Aliás, diz-se que ela não pulou não, foi a primeira pessoa a voar: ficou livre. Livre de todas as mazelas de sua miserável – nunca ordinária – vida. O prédio tinha apenas um andar. Caiu na água gelada.
Voltou pra casa e deitou na cama, tremendo. Pensou bastante na idiotice do que tinha acabado de fazer, pensar e almejar. Afinal, viver é um presente, e ela iria morrer um dia ou outro, inevitavelmente.
Decidiu viver, enquanto tremia.
Morreu de pneumonia no dia seguinte.
Achado
5 Junho 2009 por yurib